terça-feira, 30 de abril de 2013

terça-feira, 9 de abril de 2013

Vila de Olhão da Restauração

Uma coisa é o calendário da época futebolística, outra coisa completamente diferente é saber  em que dia  joga o Benfica em Olhão. Essa jornada fica logo marcada e o resto é conversa...


A Vila de Olhão da Restauração, por obra e graça de D. João VI, que assim a baptizou graças à coragem de meia dúzia de pescadores, que, a bordo do Bom Sucesso, decidiram ir de Olhão ao Rio de Janeiro informar o Rei que o reino do Algarve estava livre de franceses, graças à heróica Revolta Olhanense, recebeu-nos com o sol que há muitos meses abandonou Lisboa, deixando-nos entregues ao austero clima do norte da Europa, que moldou o feitio de quem nos governa, para mal dos nossos pecados.



O nosso Jorge Bragança, ponta de lança de Benfica (o verdadeiro Benfica é o de São Domingos, sublinho) em Olhão, avisou-nos logo: esperem-me na Gelvi, ali entre as duas praças.


Ora a Gelvi foi a primeira das surpresas: situada frente à Ria, num categórico e privilegiado canto de uma das praças, é uma gelataria das antigas, das que mete respeito. Trabalhando com gelados leves, como gosto, apurando mais a técnica genovesa que a veneziana ou napolitana, apostando mais na fruta e menos no leite e açúcar, a Sociedade Frígida Olhanense (marca Gelvi) diferencia-se pela qualidade bem acima da média (para quando um guia de gelatarias?).

Vejamos:


Seguimos para  o Lagar, uma das sedes da gastronomia algarvia. Situado no Pechão, ali bem perto de Olhão, o Lagar tem sido a nossa antecâmara dos jogos do Benfica no Algarve, sendo certo que não me lembro de lá ter estado menos de 4 horas... 

Desta vez começámos limitados: os pipis estavam esgotados e a açorda de perdiz não se come fora de época - excelente aviso para quem não gosta de aves de aviário. Guardo para outro dia, apesar de já os ter provado, o que dizer sobre estes pratos.


Não perdemos, no entanto, o tino. 

De entrada um bom presunto barranquenho, acompanhado de um esforçado paio de porco preto (seria mesmo?) e de um queijo regular - exige-se mais desta casa. 


Seguiram-se uns carapaus avinagrados, que os deuses deviam provar, e umas conquilhas que não envergonham o Algarve, a capital das ditas.



Entretanto, a primeira maior surpresa da tarde:



Estas eirozes, até para quem, como eu, conhece de cor as melhores, estavam absolutamente irrepreensíveis, dignas de figurarem entre os melhores pratos que comi nos últimos tempos (os que me lembro...).

Seguiram-se três tachos de ovas de choco. 

Ovas de choco à moda do Lagar são, como estou farto de saber e vejo nos olhos de cada novo comensal que ali levamos, a marca e a imagem desta casa. Marinadas e depois guisadas, servidas em tacho de barro, devem ser comidas uma a uma e, de preferência, sem passarem pelo prato.



Seguiram-se dois pratos equilibrados, bem confeccionados, com paladar caseiro, certeiro, mas que não entraram na memória: bacalhau à Lagar e choquinhos à alagarvia.





Depois pedimos, como o tempo ainda era muito, um dos pratos de marca: Raia de Alhada, que não desiludiu, apesar do sabor característico, que condiciona o paladar.

Finalizámos o tempo regulamentar com uma bela dose de Massinha de uma legítima corvina, a raínha dos mares do Sul. Apaladado, com trabalho forte, bem doseado na relação massinha/corvina, este prato não só estava muito bom, como superou todas as expectativas. Num momento em que a fome já nos deixava, serviu, sobretudo, para provarmos a verdadeira comida de tacho algarvia.

A acompanhar bebemos dois vinhos: Dona Maria, 2009, e Quinta do Vallado, 2010. Se o segundo estava, como sempre, óptimo, revelando uma excelente relação preço/qualidade, o primeiro deixou tanto a desejar que nem o bebemos até ao fim. Sem estar passado, perdeu todas as qualidades que um vinho daquela gama deve ter. Em suma, um fiasco!


Depois de toda esta comida, a história podia não referir as sobremesas, não fosse o facto de ter pedido um magnifico pudim algarvio.

Feito de alfarroba, figo e laranja, produtos da região, com uma aceitável quantidade de gemas, este pudim deixou marca e recomendação. A não perder...


O resto do batalhão dividiu-se entre uma merengada de limão, em tarte, e o impessoal doce da avó.
Provei-os e garanto que não chegavam aos calcanhares do pudim...


Terminei com uma genuína aguardente de medronho e um Robusto da Fábrica Açoreana Estrela - como sempre, muito bom.

O Carlos Filipe, meu bom amigo, conseguiu que lhe abrissem uma J Walker com 15 anos de casa. 15 anos... imaginem como não estava.

A refeição acabou, já perto da hora do jogo, com o Sr. Manuel, feliz proprietário, sentado à nossa mesa,  pedindo para o Benfica ganhar, chamando a atenção para o arroz de lampreia (do Guadiana) que serviria caso tivesse sido encomendado. Falou também do verdadeiro queijo da "Mina", sua terra, que abriria caso lá quiséssemos cear, o que, graças aos horários incríveis a que a Liga marca os jogos do Benfica, ficou adiado para breve...


Em suma, o Lagar é uma referência desde que ali me sentei, já há quase 10 anos, na companhia dos meus Pais. Depois, antes da final da Taça da Liga contra o Sporting, estivémos ali sentados 5 horas... desde aí, não há Algarve sem Lagar!


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Lisboa à Noite!

Sábado, depois de uma grande vitória do glorioso, fomos (atenção que o Tiago também foi, mas anda desaparecido...) ao Lisboa à Noite.


Como nunca lá tinha ido e nem tudo o que me tinham dito era bom, assumo que entrei com justo receio, que, a bem da verdade, não se consumou.


Bem pelo contrário, o presunto e polvo que serviram de entrada, acompanhados de um sempre magnífico Murganheira bruto (só reconheço o bruto como espumante), abateram qualquer dúvida: estavam muito bons.


Seguiram-se os pratos. Escolhi um folhado de linguado, muito bem feito, que mais parecia um autêntico "Linguado Wellington" (ok, meti aqui o nome do duque para relembrar a magnifica casa de Wellington, na Freineda, freguesia da bem amada Almeida)



Não experimentei os outros pratos, mas deixo aqui as imagens (pelo que os circunstantes disseram, estavam todos muito, muito bons)


Arroz de Cabidela de Pica no Chão


Pataniscas de Camarão


Fettuccine de Marisco


Para sobremesa pedimos uma simples, mas bem confeccionada, sobremesa da casa e a triologia de doces.




Terminámos da melhor maneira: um Robusto bem fresquinho da Fábrica Açoreana (será que sou o único que escreve com e?) Estrela e Aguardente Palácio de Brejoeira.





Uma nota especial para as estrelas da noite (infelizmente sem fotografia, o que é imperdoável!): duas garrafas de Quinta da Leda, 2007, que merecem todos os elogios e outros que ainda se inventarão...

A conta ficou no bolso do companheiro de escrita Tiago, que um dia a revelará ao mundo... (ou talvez não)


terça-feira, 2 de abril de 2013

Dona Isilda

Quando, no passado sábado, acordei com vontade de ir a Palmela, já sabia ao que ia. Comer bem e barato, naquele que é um dos melhores restaurantes de comida tradicional portuguesa que conheço.

É muito fácil de dar com o Dona Isilda. 
Se vier na A2, saia em Palmela e siga na direcção da vila. Depois de passar por Palmela, siga em direcção a Azeitão e há-de encontrar do lado direito da estrada uma casa cor-de-rosa e logo a seguir uma tabuleta com o nome "Restaurante Dona Isilda". É depois seguir as instruções, mas não é muito difícil. É sempre para a direita. Se vier pela N10, após passar Vila Nogueira de Azeitão, na segunda rotunda, vira para Palmela, passa por Cabanas, Quinta do Anjo e depois encontra o restaurante do lado esquerdo. Se não der pelo restaurante, não faz mal. Pode ficar na Quinta do Anjo e experimentar o Alcanena, que é da mesma família e mais rústico ainda, já que aproveita uma velha adega para fazer, também aí, as delicias que compõem o nosso estômago.

Pessoalmente, prefiro o Dona Isilda, porque tem mais oferta de comida e diversidade, para além do espaço (bem maior do que o Alcanena), quer para estacionar, quer para comer. Bate em muitos pontos, vários restaurantes do género (português, buffet, comida tradicional), como por exemplo, o Tromba Rija de Lisboa.

Comecemos pelas entradas:


Existem três mesas dedicadas a entradas (uma para queijos e pão, outra para carnes e outra com fritos), para além de uma área nos tabuleiros dedicada às saladas. Não toquei no queijo, mas é possível escolher uma variedade infindável de vários tipos: curado branco, curado de ovelha, da serra, da ilha, alentejano, flamengo, enfim. São tantos, que é difícil estar a enumerar todos. Para além do queijo, pão tradicional, com nozes e tostas. 
Optei pelas carnes e escolhi três tipos diferentes de morcela, uma rodela de chouriço, uma de farinheira e uma de paio. As morcelas estavam cada uma com o seu tempero específico, o que diferencia na qualidade. A farinheira, apesar de estar um pouco seca, era de fácil degustação. Quanto ao chouriço e ao paio, normais para a alta qualidade da casa.


Depois, fui aos tabuleiros da zona reservada às saladas e a escolha colidiu com salada de orelha fumada e salada de orelha normal, assim como a salda de grão. Na mesma zona de tabuleiros, havia muita salada, fosse ela com cenoura ralada, salada russa ou salada de alface normal. Eu optei pelo que apelava ao aumento do colestrol e não me queixei. As orelhas (para quem gosta, obviamente) estavam muito boas e o grão também.



A última parte das entradas estava destinada à mesa dos fritos e foi daí que trouxe choco frito, bolinhas de enchidos, raia, um croquete e um ovo de codorniz estrelado misturado com paio e embutido numa fatia de baguete. O choco estava divinal. Nada seco, bem mole, o que facilitava a degustação. A raia também estava muito boa e o ovo de codorniz misturado com o paio conjuga diferentes sabores na boca que são altamente recomendáveis. Deixo as bolinhas de enchidos para o fim, uma vez que foi o que me surpreendeu pela positiva. O sabor da carne misturada, onde a influência dos enchidos tem capital importância foi uma agradável surpresa. Claramente a repetir numa próxima visita.

Passemos ao peixe:


O que está no prato é facilmente explicável pelo facto de, nesta altura, começar a ficar um bocado para o cheio e como tinha uma crónica para fazer, tinha ainda de comer a carne. A escolha foi fácil e óbvia. Fácil, porque a variedade de pratos de peixe é reduzida no restaurante e óbvia, porque na semana passada tinha comido sopa de cação, pelo que este seria um prato a evitar. Assim sendo, optei pelo bacalhau com natas, bacalhau à Zé do Pipo e Açorda de Marisco. 
Comecemos por esta última. O camarão em cima do pão é só para enfeitar, porque não é preciso ter o molusco para se saborear uma açorda de marisco que sabe mesmo, mas mesmo a marisco. Não é uma açorda muito "papada", ou seja, é bastante leve, o que a torna uma boa escolha. O bacalhau com natas estava também muito bom. Não abusam muito da cebola (um clássico em vários restaurantes), mas abusam um pouco da pimenta (no entanto, suficiente para não se rejeitar logo à primeira) e o bacalhau vem acompanhado com batatas, mas na sua perfeita comparação com o bacalhau (algo que também não costuma existir em muitos restaurantes). Já o "Zé do Pipo", estava também muito bom, uma vez que não estava seco, nem com muito óleo, o que o torna bem apetecível.

Quanto às carnes:





Também optei por três pratos: arroz de aves, entrecosto no forno e dobrada. Podia escolher muito mais pratos de carne, como os que havia, entre eles, arroz de pato, favas estufadas, pezinhos de coentrada ou mão de vaca com grão, entre outros. A oferta de pratos de carne é realmente maior do que os de peixe, mas mesmo assim, a qualidade é inegável.

Nas sobremesas:




Bolo de Amêndoa, Sericaia e Bolo Rançoso. Açúcar e mais açúcar. Mas escapei-me ao bolo e à mousse de chocolate, à torta de laranja, aos inúmeros pudins e a outros doces, que compunham a mesa. Todos eles, com aspecto divinal e com sabor ainda melhor.

O vinho que me acompanhou foi o da casa, que é também da zona (tinto de Venâncio Costa Lima), que não sendo muito forte, é bastante bom para acompanhar os diferentes pratos. No entanto, a garrafeira disponível no restaurante tem uma variada oferta em termos de qualidade e de preço.

Posto isto, por 20 Euros / pessoa, com tudo incluído (entradas, pratos, sobremesas, vinho e café) o Dona Isilda é uma óptima escolha para quem quer comer muito e bem ou comer bem e muito. A simpatia dos empregados também é uma constante e só quem não foi a Palmela a este sítio é que se pode arrepender.


sexta-feira, 29 de março de 2013

Uma Má Notícia

Na Rua Augusto Hilário, em Viseu, o prazer de comer muito bem acabou. O Cortiço era conhecido de todos os que, passando por Viseu, em trabalho ou lazer, faziam daquela casa a verdadeira casa de comida no centro histórico da cidade.

Dizem os donos que a filosofia vai ter de mudar, mas ao fazerem isso, certamente mudarão o figurino que fazia do Cortiço um ponto obrigatório de passagem pela cidade de Viriato.

Sempre que lá fui, era preciso marcar a mesa, fosse para 2, 6, 10 ou 30 pessoas, como foi várias vezes o caso. E sempre havia algo que atrasava a hora. E esse sempre eram as pessoas que, ao mesmo tempo do que eu, queriam desgustar o que de bom aquela cozinha tinha.

Começávamos sempre com as morcelas e chouriços fritos, que trazidos nas pequenas frigideiras tinham sido acabadas de fazer. "Cuidado que está quente!", dizia o empregado receoso de algum acidente. Eram escusadas as palavras de atenção do mesmo. 2 minutos depois, as morcelas, misturadas ora com broa de milho, ora com pão caseiro eram o início de uma refeição quase sempre memorável.

Depois de convenientemente comidas, vinha o principal. E poderia ser o que quiséssemos. Quando me falaram na primeira vez no Arroz de Carqueja do Cortiço, fui investigar e ver o que era. Pequenos pedaços de carne de vitela, misturados com carnes, embutidos no arroz e com chá de carqueija, onde a sua folha fazia parte da decoração do tacho, convenientemente quente e com os avisos do costume.
A primeira vez que o comi, repeti pelo menos mais duas vezes, de tão bom que era.

Também havia as feijocas à maneira do sr.Abade, que também com o seu arroz eram divinais. E mais...
O cabrito assado no forno, o bacalhau à lagareiro, o polvo frito ou o arroz de pato eram as escolhas naturais para se compreender o que aquela cozinha tinha de especial.

Para a decoração da casa, os inúmeros guardanapos com os agradecimentos e as promessas de voltar a entrar naquela casa rústica, pequena, que ocupava duas portas na Rua Augusto Hilário e que era conhecida por ver os empregados a passarem de uma porta para a outra com os sabores que enchiam a alma, a barriga e o coração.

É com pena, muita pena que vejo o Cortiço fechar e mudar de "filosofia". Pode ser que os tempos mudem, efectivamente e tragam de volta aquela gente simpática, dotada de profissionalismo e de sorriso no rosto que faziam do restaurante uma referência nacional.

quarta-feira, 27 de março de 2013

O bife do Aliança - Ponta Delgada

Depois de uma valente jornada de trabalho em Ponta Delgada, o que se faz? Ataca-se o bifinho! 

Antes, no entanto, recomendo, até porque a memória não pode apagar os melhores de cada tempo, uma pequena passagem pelo último refúgio de Antero de Quental.


A Esperança não é a última...




Bom, fixemo-nos no bife.


Em anteriores passagens pela magnífica Ilha de São Miguel, comi o sacramental pedaço de carne num templo gastronómico situado na Ribeira Grande, a Associação Agrícola de São Miguel. Quem lá foi sabe bem o que digo: é uma coisa de outro mundo...



Desta vez aceitei o desafio do bom micaelense Afonso Quental, descendente em 5.º grau de Antero, e fui demandar ao Aliança, ali bem no centro de Ponta Delgada.


Se há coisa em que podemos acreditar, com ligeireza, até, é que a tipica entrada micaelense sabe sempre bem: um queijo fresco de uma espessura indescritível, acompanhado de massa de pimentão. É assim no Aliança, mas é assim em todo o lado. Não inventem que fica mal...



Depois seguiu-se o bife, o inesquecível bife.


Comecemos por explicar que o bife não é um bife normal. É, isso sim, um belo bocado de suculenta carne,  que se corta sem faca, frito com pimenta (que por cá se chama pimento), com muito alho e pouca gordura.





Acompanhado de batata legítima - nem pode ser de outra forma, creio -, o bife suplantou todas as expectativas, colocando-se ao lado do que a minha memória considera ser o melhor de sempre: o da Associação Agrícola.


Não estamos perante um daqueles mitos assentes em castelos de cartas: trata-se de um prato sólido, que pode rivalizar com qualquer outro bife do mundo.


O cozinheiro vem do Alcides, que, dizem, perde para o Aliança em preço e qualidade - da próxima vez prometo uma visita que assegure a veracidade da informação.


O vinho, já que o arquipélago se chama Açores, foi o Atlantis, que se bebe bem, revela qualidade e, sobretudo, tem melhorado muito ao longo dos anos.


Em suma, Ponta Delgada tem muito boa carne e óptimo peixe, como explicarei em breve, revelando, sobretudo, que aquela nostalgia que se adivinha em cada rosto não se deve à gastronomia regional.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Quarta Feira

- "'Tou", diz uma voz um pouco "abrutalhada" do outro lado da linha.
- "Está sim, é do restaurante Quarta Feira", pergunta o cliente.
- "É sim."
- "Queria marcar uma mesa, se faz favor".
- "São quantos?"
- "Três, dois adultos e uma criança"
- "Então apareça cá à uma da tarde!"

O desafio está lançado pelo Zé Dias, nada de senhor, porque "o Senhor está no Céu", afirma este orgulhoso "republicano, socialista e laico", quando alguém lhe pergunta porque é que um busto da República está presente na humilde decoração da Taberna Típica Quarta Feira, em Évora.

Este homem do Sabugal, radicado em Évora há já vários anos, recebe-nos em casa como se nós fôssemos da sua própria casa. Apenas não tolera atrasos. Se é para estar à uma da tarde no Quarta Feira, é para estar à uma da tarde. Regras são regras. 

E como boa casa que se preze, as regras do Zé Dias são usadas conforme ele acha que devem ser usadas e ainda bem. O prato naquele dia era cachaço de porco no forno e a minha companhia não estava muito para aí virada. Ele disse-me tranquilamente:"vais ver que ela vai gostar!". E eu, confiei sabiamente naquelas palavras.





O vinho já estava na mesa, pronto para o que desse e viesse. Uma escolha de Paulo Laureano dedicada ao Quarta Feira, onde os sabores do Alentejo são desgustados com uma classe e um sabor inconfundíveis e que ficam na memória. Mais uma vez, estas escolhas do enólogo alentejano são melhores do que a sua marca própria.

Não pedimos nada para comer. Zé Dias vai trazendo a comida, sem ninguém questionar, porque não há nada para questionar. A qualidade da comida é de tal forma, que nem há direito ao contraditório.


O queijo vem derretido, com os óregãos a acompanhar. O paio de porco preto, de tão fino cortado, acompanhado quer com as tostas, quer com o pão alentejano, acompanhado do vinho fazem das entradas um pecado capital como a gula parecer insignificante.

Só quando as primeiras entradas estão despachadas, é que entram os cogumelos.





Com azeite, alho e salsa. Cozidos. Nada mais simples. Nada mais bom do que aquilo. E prontos para o ataque ao nível seguinte.






O cachaço vem acompanhado de batata assada no forno, de arroz de cenoura e de esparregado (o melhor que já comi até hoje). O cachaço vem macio, corta-se facilmente e desgusta-se ainda melhor. O esparregado, com bocados pequenos de pão e com leite é de uma leveza extraordinária.
Estamos há vontade meia-hora a comer com gosto, a conversar entre dentadas e a saborear o vinho que faz com que o momento tenha de ser aproveitado ao máximo.



Após o cachaço, vem a sobremesa. Um misto de especialidades conventuais alentejanas, onde se destaca a encharcada e o bolo rançoso. O melão (visto que o repasto foi no Verão) também acompanha, dando a frescura necessária para completar a refeição.

Naquela rua estreita de Évora, a Taberna Típica Quarta Feira é um dos melhores sítios para comer. 25 Euros por pessoa não é nada, quando comparado com outros restaurantes mais urbanos e em outras cidades, onde o efeito "gourmet" toma toda a atenção, em detrimento da qualidade. E qualidade é coisa que existe na casa do Zé Dias.

Não tem multibanco, mas perto existem caixas ATM's suficientes para não se ter desculpa. A casa tem uma página no Facebook, e volto a frisar, é fundamental que se reserve a mesa (pode ser no próprio dia, mas com alguma antecedência).

É sempre um prazer voltar ao Quarta Feira. Experimentem. Vão ver que não se arrependem.



quarta-feira, 20 de março de 2013

Restaurante "A Colina"

Situada bem no centro de Lisboa, no cruzamento da Filipe Folque com a Duque de Ávila, "A Colina" mantém-se como uma casa a visitar (ou a evitar, como veremos...), nomeadamente quando queremos comer comida tradicional portuguesa e ver as arrogantes caras da burguesia lisboeta a receberem, como foi o caso, barulhentos comensais.



Sábado fomos lá, em família.



Abrimos com uns camarões panados deliciosos, meia dúzia de rissóis comestíveis e umas ameijoas intragáveis (que crime, que crime, que crime...).



Comi, de seguida, uma maravilhosa língua estufada, acompanhada por um esforçado puré de batata. Ao meu lado, bateram-se com uma boa peça de rosbife e à minha frente foi comida uma medíocre carne de porco à portuguesa (com aquela experiência das ameijoas, não se podia querer mais...). Ainda nos batemos com uma  vitela barrosã muito honesta.



Seguiram-se umas sobremesas equilibradas, os cafés e os digestivos.



A equação é fácil de delinear: é uma casa que se limita a tratar bem os clientes habituais, a maior parte deles adeptos do Sporting, que não se esforça por agradar a quem pouco lá vai, com empregados rudes e antipáticos, mas com comida que, de quando em quando, se aproxima da que comemos em casa daquela Tia que cozinha como ninguém.


Pratica preços absurdos, que só seriam aceitáveis se as doses fossem fartas. Não são.


A avaliação seria negativa não tivesse, ainda, o sabor dos camarões e da língua na memória.



PS - Vá lá que ao lanche bebemos um extraordinário Quinta das Bageiras, Bruto Natural, que não deixa ninguém ficar mal...




terça-feira, 19 de março de 2013

Boa Cama Boa Mesa 2013

No próximo fim de semana, com o semanário Expresso, sai o BCBM 2013. Custará 9,90€ e, apesar de não ser o melhor livro do mundo sobre gastronomia e hotelaria, é indispensável para quem gosta de ter uma boa ideia sobre onde se pode comer bem em Portugal. Espero que não se repitam os erros das edições anteriores, mas deixo os meus comentários para depois da leitura...

quarta-feira, 13 de março de 2013

Portugal Restaurant Week 2013

Este ano, a Restaurant Week, assume a forma de um evento mais alargado (incluí várias cidades Portuguesas) e decorre de 14 a 24 de Março.Apesar de não ser um conceito totalmente do meu agrado, reconheço que é uma boa tentativa de divulgar a cozinha de alguns restaurantes que, por causa do preço/status, estão mais fora da rota diária da maioria dos Portugueses.

Aproveitem para escolher restaurantes (aqui fica a lista de todos os restaurantes aderentes) que não conheçam e, em jeito de sugestão, deixo as minhas preferências:
Aveiro - Olive Oil;
Braga - Pousada de Santa Maria do Bouro;
Bragança - Flor de Sal;
C.Branco - Praça Velha;
Coimbra - Bussaco;
Évora - Divinus;
Faro - Orangerie;
Lisboa - Claro;
Porto - DOP;
Vila Real - Douro In.

Marquem mesa (requisito imperativo, dado o número de comensais que nesta altura afluem aos restaurantes) e divirtam-se. Conheçam novas coisas, novas cozinhas, novos pratos. Comam e bebam! Sentados à mesa, com Amigos, a vida é sempre mais Bela.

Nota: O BestTables é um óptimo local para reservas de mesa.

terça-feira, 12 de março de 2013

"Casual" Michellin

E é assim que começo a minha participação. Sem apresentações, introduções ou coisas similares. Deixo apenas a nota que não escrevo bem e que peço, desde já, desculpa, por esse facto.

Leon. Desloquei-me, no passado fim de semana, à capital da província espanhola de Leão. Foi a segunda vez que o fiz e se da primeira visita gostei, desta adorei. Que bela cidade! De tudo, destaco o Barrio Húmedo (imperdível!) que nos mostra que esta cidade tem muito passado (plazas, catedrais, ruelas….) e, ao mesmo tempo, muito presente e futuro (copas, gente, casais, juventude, noite…).Foi nesta cidade, mais concretamente no número 1 da Calle las Campanillas, que jantei no Restaurante Cocinandos.

Este restaurante, com capacidade máxima para 30 pessoas, que apenas “roda” as mesas uma vez por refeição (tornando quase obrigatória a reserva antecipada) e com uma decoração simples (quase demasiado minimalista), apenas tem disponível na sua ementa um Menu (39,8€/pax) composto por sete pratos e que varia (pouco) todas as semanas, conforme a qualidade dos produtos que a dupla de cozinheiros consegue encontrar. Iniciemos a refeição....
Cortesia do chefe – "Hóstia" de camarão com creme de morcela

As "hóstias" apresentavam uma leveza impressionante. Não se sentia o óleo da fritura e o sabor a camarão era "residual" e não se sobrepunha ao conjunto. O creme de morcela que acompanhava, era suave e trazia um equilíbrio ao conjunto notável. Um prato que, facilmente seria intragável, era leve e estava muito bem conseguido para o início de uma refeição com sete pratos.

Corazón de alcachofa escarchada con lengua curada (desculpem a tradução do Google!!!)
Coração de alcachofra recheada com língua curada

Este pequeno coração era excelente - foi o prato que a minha companheira mais gostou -! A massa filó que envolvia a alcachofra e o recheio de carne que tinha dentro, combinavam na perfeição. Adicionando os molhos que estavam na base, o conjunto ganhava outra alma e outro coração.

Alubias verdinas, aguacate y berberechos
Sopa de feijão, abacate e berbigão

Este caldo de feijão branco, pequenas “bolas” de abacate, berbigões e pétalas de flores, era diferente de tudo o que estamos habituados. Fresco! A diferença de texturas, que cada dentada proporcionava, trazia um mundo novo ao cérebro e torna a degustação num caso único e irrepetível.

Huevo escalfado, patata y trufa
Ovo com batata e trufa

As variações de ovo, são um dos pratos com mais reputação deste restaurante. Se o comermos, percebemos porquê. Este prato representa uma mudança de paradigma da refeição. Até aqui os pratos eram leves e muito neutros, agora evoluía-se para uma mistura de sabores e texturas mais fortes e com mais paladar. Mais intenso! Excelente. As trufas, raspadas directamente para o prato, transmitem um sabor a terra, a castanha, a fruto seco. O molho de batata e a base de frango dava a consistência necessária ao ovo, que se apresentava com a gema totalmente liquefeita.

Rape asado en chorizo
Tamboril assado envolto em chouriço

O pior prato da noite. O tamboril estava semi cru. O sabor a chouriço, dado pelo polme colocado em cima dos pedaços de tamboril, era muito intenso, muito forte e estragava tudo. A mini tortilha de batata e fiambre que acompanhava, estava divinal.

Lomo de ciervo ahumado al momento, frutos y cebollitas glaseadas
Lombo de veado fumado ao momento com frutas e cebolas glaceadas

Para mim o melhor da noite! O lombo era tenríssimo! O facto da peça ser fumada ao momento fez com que parecesse que estivesse no campo, à lareira, a comer um peça de caça. Para ser melhor só se na sala estivesse mais frio….. O molho que acompanhava as cebolinhas trazia o sabor agridoce necessário ao veado. Que ideia! Quem já provou veado e está habituado a comer vaca, sabe que o sabor próprio da peça pode ser desagradável….esquisita. Aqui, tudo batia certo.

Queso curado de oveja con gominola de tomate
Queijo de cabra com geleia de tomate

Este mini bolinho de queijo, com pedaços de geleia no meio, representa o que a invenção pode fazer à apresentação de um prato simples. O queijo, curado, era muito bom. A geleia estava na quantidade certa. Acreditem que o equilíbrio era mesmo perfeito!

Savarín de chocolate, fresas y mascarpone
Savarin de chocolate, com variações de morango e mascarpone.

A sobremesa……. Eu não sou muito de sobremesas. Gosto muito de ovos! Grande concentração de ovos….mas, às vezes, até dispensava a sobremesa. O mascarpone era leve e simples, não tornando o prato demasiado doce e fazendo um óptimo contraste com o morango. As variações de morango apresentavam-se engalanadas e cheias de vida (destaco o gelado!). Doces q.b., transmitiam um sabor fresco ao final da refeição, pena que o savarin apenas se revelou um bolo seco e mau. Algo que não devia (podia?) ter acontecido com o último prato da noite.

Acompanhei esta refeição com um tinto Camins del Priorat 2010 (24€). Excelente, assim como grande parte dos vinhos que vêm dessa região, pouco conhecida, espanhola.

O serviço, informal, dava a sensação de uma rapidez desnecessária.

Nota final para os talheres Cutipol (made in Portugal) que acompanharam o primeiro e último prato e para a conta – 110€ - depois dos cafés.

Terminada a descrição, perguntam vocês: Então porquê o título “Casual” Michellin?
O Cocinandos é um dos 123 restaurantes espanhóis com 1 Estrela Michellin e é o exemplo perfeito do facto de “eles” terem 123 e “nós” 8. É possível ter 1 estrela Michellin e ser-se informal (casual). É possível apresentar-se uma cozinha de inovação e de excelência, numa cidade média e com limitações (número de pessoas, turismo, capacidade das bolsas….). A carta de vinhos tinha mais de 20 vinhos abaixo dos 30€ (representava mais de 50% dos disponíveis). Em Portugal, quando pensamos em estrelas Michellin, pensamos, todos, em preços exorbitantes - bem sei que 40€ por pessoa é caro e que a vida está difícil, mas vejo muitos restaurantes cheios, que praticam preços muito mais elevados, com qualidade muito inferior - e isso inibe a “fantasia” e a ousadia empresarial dos nossos chefes/empresários. Há pouco tempo (no rescaldo da atribuição da estrela ao Belcanto) ouvi o José Avillez dizer que o que lhe permitia ter o Belcanto era o serviço de catering e o Cantinho….. Temos que mudar de mentalidade. Temos que evoluir. Temos que dar o salto extra para vermos os bons restaurantes de Portugal, serem reconhecidos como tal. Para os ver ser reconhecidos no guia vermelho! Perguntem aos espanhóis, quanto vale o turismo de Gastronomia….

segunda-feira, 11 de março de 2013

Das couves e do chouriço – o cozido à portuguesa!




No coração da Beira Alta, de onde vem metade da minha carga genética, não se fala em produtos gourmet. A bem da verdade, deixem-me que vos confidencie uma coisa: ninguém devia aceitar comprar o que quer que fosse “gourmet”. Jamais…

A palavra, por si só, irrita. Mas mais irritante é a ideia que nos venderam: é gourmet, é bom. É bom uma porra! Ou melhor, se é bom não é por ser gourmet, é porque os produtos são de qualidade!

Na Beira Alta, como nós sabemos, é tudo bom, muito bom. A começar nas batatas e nas couves, nas carnes de vaca e de porco e, sobretudo, nos enchidos…

O que tem isto a ver com o cozido à portuguesa?

Nada e tudo.

Quem me conhece sabe que não passo uma semana sem comer cozido. Por exemplo, sexta-feira comi um em Coimbra e domingo outro em Lisboa. Cozidos completamente diferentes, mas com um denominador comum: boas couves e mau chouriço.

Se as couves são essenciais no cozido, os enchidos são fundamentais. Uma boa morcela é insubstituível (bem como uma farinheira a sério ou um chouriço de sangue) e não há cozido se o nabo não souber a nabo (o mal que isto fica…)...

Por isso mesmo é que não percebo como é que os chouriços andam intragáveis, absolutamente intragáveis. Não percebo, mas sei porquê: o chouriço massificou-se naquele sabor intragável a má salsicha fresca, ainda que duro. Ou seja, confundiram isto tudo (a culpa é mesmo daquelas empresas que os mandam embalados) e quem sofre somos nós, os apreciadores de cozido.

Sucede que embora não se atribua, erradamente, ao chouriço o papel de relevo que se dá à morcela e à farinheira, este produto tem de ser bom para que possamos afirmar que os enchidos são bons…

As próprias lojas ditas gourmet vendem chouriços que não valem um avo, confundindo as pessoas sobre o real sabor da coisa – e aqui radica o perigo deste tipo de lojas…

Deixo-vos uma sugestão e um princípio: não abdiquem de reclamar quando vos impuserem o chouriço da moda e escolham o cozido que o tiver melhor.

É verdade que em Lisboa podemos comer cozido 365 dias por ano e quase todos muito honestos. Mas à excepção das grandes casas, como o Orelhas (há cerca de mês e meio comi um inesquecível do Orelhas...), o Apuradinho ou o Coelho da Rocha (o Painel é um ex-restaurante que está a perpetuar a agonia, mantendo-se aberto …), que cobram preços insuportáveis pelo cozido, quase todos sofrem deste mal.

Nesta lógica, nós, lá em casa, já elegemos o melhor, considerando a relação (fundamental, sublinho) qualidade-preço. Fica no Estádio da Luz, na zona comercial e é feito no Terceiro Anel (é curioso que rivaliza, em qualidade, com o da Tasquinha do Lagarto, em Campolide). As couves são de primeira linha e os enchidos são escolhidos por um bom beirão. Ora, um bom beirão faz falta em qualquer casa…

domingo, 10 de março de 2013

Marquês dos Vales Selecta 2010

Quando nos dirigimos num supermercado à parte da garrafeira, todo o país está lá representado. São os vinhos do Douro, do Dão, os Verdes do Minho, os da Estremadura, os do Alentejo e os da península de Setúbal. Curiosamente, não costumo ver os vinhos do Algarve. E se discutirmos entre amigos, se conhecem vinhos do Algarve, a reacção é quase sempre a mesma, ou seja, o desconhecimento.

Foi o que me aconteceu ontem, quando uns amigos chegaram a casa para jantar e tinham ficado incumbidos de escolher o vinho que acompanharia a carne. E foi quando eles me disseram que uma das garrafas era do Algarve, que a minha reacção foi: "do Algarve?".

E foi aí que conheci a Adega Cooperativa de Lagoa, mais concretamente a Quinta dos Vales, em Estombar, onde este Marquês dos Vales Selecta 2010 que veêm mais acima foi uma agradável surpresa.

Com um sabor intenso, a mistura de castas dá-lhe um toque bem agradável para acompanhar carnes, como foi o caso. Para título de curiosidade, e tendo em conta o que estava escrito no rótulo da garrafa, as castas usadas no Marquês dos Vales são: 34% Cabernet Sauvignon, 32% Syrah, 14% Touriga Nacional, 10% Aragonês e 10% Petit Verdot. Uma amálgama de castas que só favorece o degustar do néctar ao mesmo tempo que nos vamos lambusando na comida.

Olhando para a ficha técnica do vinho, notamos que há mão de Paulo Laureano. O que a mim me surpreende, já que o enólogo alentejano consegue sempre desencantar melhores vinhos do que os seus em nome próprio. Mas mesmo assim, este Marquês de Vales, por 6 euros, é mesmo uma agradável surpresa.