terça-feira, 9 de abril de 2013

Vila de Olhão da Restauração

Uma coisa é o calendário da época futebolística, outra coisa completamente diferente é saber  em que dia  joga o Benfica em Olhão. Essa jornada fica logo marcada e o resto é conversa...


A Vila de Olhão da Restauração, por obra e graça de D. João VI, que assim a baptizou graças à coragem de meia dúzia de pescadores, que, a bordo do Bom Sucesso, decidiram ir de Olhão ao Rio de Janeiro informar o Rei que o reino do Algarve estava livre de franceses, graças à heróica Revolta Olhanense, recebeu-nos com o sol que há muitos meses abandonou Lisboa, deixando-nos entregues ao austero clima do norte da Europa, que moldou o feitio de quem nos governa, para mal dos nossos pecados.



O nosso Jorge Bragança, ponta de lança de Benfica (o verdadeiro Benfica é o de São Domingos, sublinho) em Olhão, avisou-nos logo: esperem-me na Gelvi, ali entre as duas praças.


Ora a Gelvi foi a primeira das surpresas: situada frente à Ria, num categórico e privilegiado canto de uma das praças, é uma gelataria das antigas, das que mete respeito. Trabalhando com gelados leves, como gosto, apurando mais a técnica genovesa que a veneziana ou napolitana, apostando mais na fruta e menos no leite e açúcar, a Sociedade Frígida Olhanense (marca Gelvi) diferencia-se pela qualidade bem acima da média (para quando um guia de gelatarias?).

Vejamos:


Seguimos para  o Lagar, uma das sedes da gastronomia algarvia. Situado no Pechão, ali bem perto de Olhão, o Lagar tem sido a nossa antecâmara dos jogos do Benfica no Algarve, sendo certo que não me lembro de lá ter estado menos de 4 horas... 

Desta vez começámos limitados: os pipis estavam esgotados e a açorda de perdiz não se come fora de época - excelente aviso para quem não gosta de aves de aviário. Guardo para outro dia, apesar de já os ter provado, o que dizer sobre estes pratos.


Não perdemos, no entanto, o tino. 

De entrada um bom presunto barranquenho, acompanhado de um esforçado paio de porco preto (seria mesmo?) e de um queijo regular - exige-se mais desta casa. 


Seguiram-se uns carapaus avinagrados, que os deuses deviam provar, e umas conquilhas que não envergonham o Algarve, a capital das ditas.



Entretanto, a primeira maior surpresa da tarde:



Estas eirozes, até para quem, como eu, conhece de cor as melhores, estavam absolutamente irrepreensíveis, dignas de figurarem entre os melhores pratos que comi nos últimos tempos (os que me lembro...).

Seguiram-se três tachos de ovas de choco. 

Ovas de choco à moda do Lagar são, como estou farto de saber e vejo nos olhos de cada novo comensal que ali levamos, a marca e a imagem desta casa. Marinadas e depois guisadas, servidas em tacho de barro, devem ser comidas uma a uma e, de preferência, sem passarem pelo prato.



Seguiram-se dois pratos equilibrados, bem confeccionados, com paladar caseiro, certeiro, mas que não entraram na memória: bacalhau à Lagar e choquinhos à alagarvia.





Depois pedimos, como o tempo ainda era muito, um dos pratos de marca: Raia de Alhada, que não desiludiu, apesar do sabor característico, que condiciona o paladar.

Finalizámos o tempo regulamentar com uma bela dose de Massinha de uma legítima corvina, a raínha dos mares do Sul. Apaladado, com trabalho forte, bem doseado na relação massinha/corvina, este prato não só estava muito bom, como superou todas as expectativas. Num momento em que a fome já nos deixava, serviu, sobretudo, para provarmos a verdadeira comida de tacho algarvia.

A acompanhar bebemos dois vinhos: Dona Maria, 2009, e Quinta do Vallado, 2010. Se o segundo estava, como sempre, óptimo, revelando uma excelente relação preço/qualidade, o primeiro deixou tanto a desejar que nem o bebemos até ao fim. Sem estar passado, perdeu todas as qualidades que um vinho daquela gama deve ter. Em suma, um fiasco!


Depois de toda esta comida, a história podia não referir as sobremesas, não fosse o facto de ter pedido um magnifico pudim algarvio.

Feito de alfarroba, figo e laranja, produtos da região, com uma aceitável quantidade de gemas, este pudim deixou marca e recomendação. A não perder...


O resto do batalhão dividiu-se entre uma merengada de limão, em tarte, e o impessoal doce da avó.
Provei-os e garanto que não chegavam aos calcanhares do pudim...


Terminei com uma genuína aguardente de medronho e um Robusto da Fábrica Açoreana Estrela - como sempre, muito bom.

O Carlos Filipe, meu bom amigo, conseguiu que lhe abrissem uma J Walker com 15 anos de casa. 15 anos... imaginem como não estava.

A refeição acabou, já perto da hora do jogo, com o Sr. Manuel, feliz proprietário, sentado à nossa mesa,  pedindo para o Benfica ganhar, chamando a atenção para o arroz de lampreia (do Guadiana) que serviria caso tivesse sido encomendado. Falou também do verdadeiro queijo da "Mina", sua terra, que abriria caso lá quiséssemos cear, o que, graças aos horários incríveis a que a Liga marca os jogos do Benfica, ficou adiado para breve...


Em suma, o Lagar é uma referência desde que ali me sentei, já há quase 10 anos, na companhia dos meus Pais. Depois, antes da final da Taça da Liga contra o Sporting, estivémos ali sentados 5 horas... desde aí, não há Algarve sem Lagar!


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