- "'Tou", diz uma voz um pouco "abrutalhada" do outro lado da linha.
- "Está sim, é do restaurante Quarta Feira", pergunta o cliente.
- "É sim."
- "Queria marcar uma mesa, se faz favor".
- "São quantos?"
- "Três, dois adultos e uma criança"
- "Então apareça cá à uma da tarde!"
O desafio está lançado pelo Zé Dias, nada de senhor, porque "o Senhor está no Céu", afirma este orgulhoso "republicano, socialista e laico", quando alguém lhe pergunta porque é que um busto da República está presente na humilde decoração da Taberna Típica Quarta Feira, em Évora.
Este homem do Sabugal, radicado em Évora há já vários anos, recebe-nos em casa como se nós fôssemos da sua própria casa. Apenas não tolera atrasos. Se é para estar à uma da tarde no Quarta Feira, é para estar à uma da tarde. Regras são regras.
E como boa casa que se preze, as regras do Zé Dias são usadas conforme ele acha que devem ser usadas e ainda bem. O prato naquele dia era cachaço de porco no forno e a minha companhia não estava muito para aí virada. Ele disse-me tranquilamente:"vais ver que ela vai gostar!". E eu, confiei sabiamente naquelas palavras.
O vinho já estava na mesa, pronto para o que desse e viesse. Uma escolha de Paulo Laureano dedicada ao Quarta Feira, onde os sabores do Alentejo são desgustados com uma classe e um sabor inconfundíveis e que ficam na memória. Mais uma vez, estas escolhas do enólogo alentejano são melhores do que a sua marca própria.
Não pedimos nada para comer. Zé Dias vai trazendo a comida, sem ninguém questionar, porque não há nada para questionar. A qualidade da comida é de tal forma, que nem há direito ao contraditório.
O queijo vem derretido, com os óregãos a acompanhar. O paio de porco preto, de tão fino cortado, acompanhado quer com as tostas, quer com o pão alentejano, acompanhado do vinho fazem das entradas um pecado capital como a gula parecer insignificante.
Só quando as primeiras entradas estão despachadas, é que entram os cogumelos.
Com azeite, alho e salsa. Cozidos. Nada mais simples. Nada mais bom do que aquilo. E prontos para o ataque ao nível seguinte.
O cachaço vem acompanhado de batata assada no forno, de arroz de cenoura e de esparregado (o melhor que já comi até hoje). O cachaço vem macio, corta-se facilmente e desgusta-se ainda melhor. O esparregado, com bocados pequenos de pão e com leite é de uma leveza extraordinária.
Estamos há vontade meia-hora a comer com gosto, a conversar entre dentadas e a saborear o vinho que faz com que o momento tenha de ser aproveitado ao máximo.
Após o cachaço, vem a sobremesa. Um misto de especialidades conventuais alentejanas, onde se destaca a encharcada e o bolo rançoso. O melão (visto que o repasto foi no Verão) também acompanha, dando a frescura necessária para completar a refeição.
Naquela rua estreita de Évora, a Taberna Típica Quarta Feira é um dos melhores sítios para comer. 25 Euros por pessoa não é nada, quando comparado com outros restaurantes mais urbanos e em outras cidades, onde o efeito "gourmet" toma toda a atenção, em detrimento da qualidade. E qualidade é coisa que existe na casa do Zé Dias.
Não tem multibanco, mas perto existem caixas ATM's suficientes para não se ter desculpa. A casa tem uma página no Facebook, e volto a frisar, é fundamental que se reserve a mesa (pode ser no próprio dia, mas com alguma antecedência).
É sempre um prazer voltar ao Quarta Feira. Experimentem. Vão ver que não se arrependem.
Subscrevo o Daniel,
ResponderEliminarA adega tipica das quartas-feiras é uma experiência a não perder em Evora.
tenho a ideia que o Ze Dias é do Sabugal e não do Sardoal, mas isso é irrelevante, no Ze Dias há muita qualidade!!
tive pena de ter ido ao almoço pois estava com o tempo apertado, mas recomendo!!
Abraço
O Ze Dias é de uma aldeia chamada quarta-feira, concelho do Sabugal, distrito da Guarda...
ResponderEliminarJá está alterado.
ResponderEliminarObrigado pelo esclarecimento. Confundi terras beirãs, o que para certos beirões é sempre uma chatice! :)