segunda-feira, 11 de março de 2013

Das couves e do chouriço – o cozido à portuguesa!




No coração da Beira Alta, de onde vem metade da minha carga genética, não se fala em produtos gourmet. A bem da verdade, deixem-me que vos confidencie uma coisa: ninguém devia aceitar comprar o que quer que fosse “gourmet”. Jamais…

A palavra, por si só, irrita. Mas mais irritante é a ideia que nos venderam: é gourmet, é bom. É bom uma porra! Ou melhor, se é bom não é por ser gourmet, é porque os produtos são de qualidade!

Na Beira Alta, como nós sabemos, é tudo bom, muito bom. A começar nas batatas e nas couves, nas carnes de vaca e de porco e, sobretudo, nos enchidos…

O que tem isto a ver com o cozido à portuguesa?

Nada e tudo.

Quem me conhece sabe que não passo uma semana sem comer cozido. Por exemplo, sexta-feira comi um em Coimbra e domingo outro em Lisboa. Cozidos completamente diferentes, mas com um denominador comum: boas couves e mau chouriço.

Se as couves são essenciais no cozido, os enchidos são fundamentais. Uma boa morcela é insubstituível (bem como uma farinheira a sério ou um chouriço de sangue) e não há cozido se o nabo não souber a nabo (o mal que isto fica…)...

Por isso mesmo é que não percebo como é que os chouriços andam intragáveis, absolutamente intragáveis. Não percebo, mas sei porquê: o chouriço massificou-se naquele sabor intragável a má salsicha fresca, ainda que duro. Ou seja, confundiram isto tudo (a culpa é mesmo daquelas empresas que os mandam embalados) e quem sofre somos nós, os apreciadores de cozido.

Sucede que embora não se atribua, erradamente, ao chouriço o papel de relevo que se dá à morcela e à farinheira, este produto tem de ser bom para que possamos afirmar que os enchidos são bons…

As próprias lojas ditas gourmet vendem chouriços que não valem um avo, confundindo as pessoas sobre o real sabor da coisa – e aqui radica o perigo deste tipo de lojas…

Deixo-vos uma sugestão e um princípio: não abdiquem de reclamar quando vos impuserem o chouriço da moda e escolham o cozido que o tiver melhor.

É verdade que em Lisboa podemos comer cozido 365 dias por ano e quase todos muito honestos. Mas à excepção das grandes casas, como o Orelhas (há cerca de mês e meio comi um inesquecível do Orelhas...), o Apuradinho ou o Coelho da Rocha (o Painel é um ex-restaurante que está a perpetuar a agonia, mantendo-se aberto …), que cobram preços insuportáveis pelo cozido, quase todos sofrem deste mal.

Nesta lógica, nós, lá em casa, já elegemos o melhor, considerando a relação (fundamental, sublinho) qualidade-preço. Fica no Estádio da Luz, na zona comercial e é feito no Terceiro Anel (é curioso que rivaliza, em qualidade, com o da Tasquinha do Lagarto, em Campolide). As couves são de primeira linha e os enchidos são escolhidos por um bom beirão. Ora, um bom beirão faz falta em qualquer casa…

4 comentários:

  1. Nada como uma boa refeição beirã! E esse beirão de que falas, sabe o que é bom!
    www.facebook.com/3anel

    Belo início para o que sei que será um blog de sucesso e cheio de boas recomendações! Boa sorte!

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  2. Muitos parabéns aos meus queridos amigos por um cativante blog que nos leva às boas memórias desta vida. Para premiar tão valiosa iniciativa vão receber como recompensa a tão apreciada morcela e farinheira beirã. São de confiança, de terras de Azurara, embora infelizmente repousem no meu congelador o que as prejudica mas não lhes retira totalmente a sua nobreza. Um grande abraço.
    Tiago Gomes Pedro

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  3. Aguardo, já com água na boca, pelo texto sobre o cabrito!... ;-)

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  4. O Apuradinho está a decair na qualidade na inversa do aumento de preço.

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