terça-feira, 30 de abril de 2013

terça-feira, 9 de abril de 2013

Vila de Olhão da Restauração

Uma coisa é o calendário da época futebolística, outra coisa completamente diferente é saber  em que dia  joga o Benfica em Olhão. Essa jornada fica logo marcada e o resto é conversa...


A Vila de Olhão da Restauração, por obra e graça de D. João VI, que assim a baptizou graças à coragem de meia dúzia de pescadores, que, a bordo do Bom Sucesso, decidiram ir de Olhão ao Rio de Janeiro informar o Rei que o reino do Algarve estava livre de franceses, graças à heróica Revolta Olhanense, recebeu-nos com o sol que há muitos meses abandonou Lisboa, deixando-nos entregues ao austero clima do norte da Europa, que moldou o feitio de quem nos governa, para mal dos nossos pecados.



O nosso Jorge Bragança, ponta de lança de Benfica (o verdadeiro Benfica é o de São Domingos, sublinho) em Olhão, avisou-nos logo: esperem-me na Gelvi, ali entre as duas praças.


Ora a Gelvi foi a primeira das surpresas: situada frente à Ria, num categórico e privilegiado canto de uma das praças, é uma gelataria das antigas, das que mete respeito. Trabalhando com gelados leves, como gosto, apurando mais a técnica genovesa que a veneziana ou napolitana, apostando mais na fruta e menos no leite e açúcar, a Sociedade Frígida Olhanense (marca Gelvi) diferencia-se pela qualidade bem acima da média (para quando um guia de gelatarias?).

Vejamos:


Seguimos para  o Lagar, uma das sedes da gastronomia algarvia. Situado no Pechão, ali bem perto de Olhão, o Lagar tem sido a nossa antecâmara dos jogos do Benfica no Algarve, sendo certo que não me lembro de lá ter estado menos de 4 horas... 

Desta vez começámos limitados: os pipis estavam esgotados e a açorda de perdiz não se come fora de época - excelente aviso para quem não gosta de aves de aviário. Guardo para outro dia, apesar de já os ter provado, o que dizer sobre estes pratos.


Não perdemos, no entanto, o tino. 

De entrada um bom presunto barranquenho, acompanhado de um esforçado paio de porco preto (seria mesmo?) e de um queijo regular - exige-se mais desta casa. 


Seguiram-se uns carapaus avinagrados, que os deuses deviam provar, e umas conquilhas que não envergonham o Algarve, a capital das ditas.



Entretanto, a primeira maior surpresa da tarde:



Estas eirozes, até para quem, como eu, conhece de cor as melhores, estavam absolutamente irrepreensíveis, dignas de figurarem entre os melhores pratos que comi nos últimos tempos (os que me lembro...).

Seguiram-se três tachos de ovas de choco. 

Ovas de choco à moda do Lagar são, como estou farto de saber e vejo nos olhos de cada novo comensal que ali levamos, a marca e a imagem desta casa. Marinadas e depois guisadas, servidas em tacho de barro, devem ser comidas uma a uma e, de preferência, sem passarem pelo prato.



Seguiram-se dois pratos equilibrados, bem confeccionados, com paladar caseiro, certeiro, mas que não entraram na memória: bacalhau à Lagar e choquinhos à alagarvia.





Depois pedimos, como o tempo ainda era muito, um dos pratos de marca: Raia de Alhada, que não desiludiu, apesar do sabor característico, que condiciona o paladar.

Finalizámos o tempo regulamentar com uma bela dose de Massinha de uma legítima corvina, a raínha dos mares do Sul. Apaladado, com trabalho forte, bem doseado na relação massinha/corvina, este prato não só estava muito bom, como superou todas as expectativas. Num momento em que a fome já nos deixava, serviu, sobretudo, para provarmos a verdadeira comida de tacho algarvia.

A acompanhar bebemos dois vinhos: Dona Maria, 2009, e Quinta do Vallado, 2010. Se o segundo estava, como sempre, óptimo, revelando uma excelente relação preço/qualidade, o primeiro deixou tanto a desejar que nem o bebemos até ao fim. Sem estar passado, perdeu todas as qualidades que um vinho daquela gama deve ter. Em suma, um fiasco!


Depois de toda esta comida, a história podia não referir as sobremesas, não fosse o facto de ter pedido um magnifico pudim algarvio.

Feito de alfarroba, figo e laranja, produtos da região, com uma aceitável quantidade de gemas, este pudim deixou marca e recomendação. A não perder...


O resto do batalhão dividiu-se entre uma merengada de limão, em tarte, e o impessoal doce da avó.
Provei-os e garanto que não chegavam aos calcanhares do pudim...


Terminei com uma genuína aguardente de medronho e um Robusto da Fábrica Açoreana Estrela - como sempre, muito bom.

O Carlos Filipe, meu bom amigo, conseguiu que lhe abrissem uma J Walker com 15 anos de casa. 15 anos... imaginem como não estava.

A refeição acabou, já perto da hora do jogo, com o Sr. Manuel, feliz proprietário, sentado à nossa mesa,  pedindo para o Benfica ganhar, chamando a atenção para o arroz de lampreia (do Guadiana) que serviria caso tivesse sido encomendado. Falou também do verdadeiro queijo da "Mina", sua terra, que abriria caso lá quiséssemos cear, o que, graças aos horários incríveis a que a Liga marca os jogos do Benfica, ficou adiado para breve...


Em suma, o Lagar é uma referência desde que ali me sentei, já há quase 10 anos, na companhia dos meus Pais. Depois, antes da final da Taça da Liga contra o Sporting, estivémos ali sentados 5 horas... desde aí, não há Algarve sem Lagar!


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Lisboa à Noite!

Sábado, depois de uma grande vitória do glorioso, fomos (atenção que o Tiago também foi, mas anda desaparecido...) ao Lisboa à Noite.


Como nunca lá tinha ido e nem tudo o que me tinham dito era bom, assumo que entrei com justo receio, que, a bem da verdade, não se consumou.


Bem pelo contrário, o presunto e polvo que serviram de entrada, acompanhados de um sempre magnífico Murganheira bruto (só reconheço o bruto como espumante), abateram qualquer dúvida: estavam muito bons.


Seguiram-se os pratos. Escolhi um folhado de linguado, muito bem feito, que mais parecia um autêntico "Linguado Wellington" (ok, meti aqui o nome do duque para relembrar a magnifica casa de Wellington, na Freineda, freguesia da bem amada Almeida)



Não experimentei os outros pratos, mas deixo aqui as imagens (pelo que os circunstantes disseram, estavam todos muito, muito bons)


Arroz de Cabidela de Pica no Chão


Pataniscas de Camarão


Fettuccine de Marisco


Para sobremesa pedimos uma simples, mas bem confeccionada, sobremesa da casa e a triologia de doces.




Terminámos da melhor maneira: um Robusto bem fresquinho da Fábrica Açoreana (será que sou o único que escreve com e?) Estrela e Aguardente Palácio de Brejoeira.





Uma nota especial para as estrelas da noite (infelizmente sem fotografia, o que é imperdoável!): duas garrafas de Quinta da Leda, 2007, que merecem todos os elogios e outros que ainda se inventarão...

A conta ficou no bolso do companheiro de escrita Tiago, que um dia a revelará ao mundo... (ou talvez não)


terça-feira, 2 de abril de 2013

Dona Isilda

Quando, no passado sábado, acordei com vontade de ir a Palmela, já sabia ao que ia. Comer bem e barato, naquele que é um dos melhores restaurantes de comida tradicional portuguesa que conheço.

É muito fácil de dar com o Dona Isilda. 
Se vier na A2, saia em Palmela e siga na direcção da vila. Depois de passar por Palmela, siga em direcção a Azeitão e há-de encontrar do lado direito da estrada uma casa cor-de-rosa e logo a seguir uma tabuleta com o nome "Restaurante Dona Isilda". É depois seguir as instruções, mas não é muito difícil. É sempre para a direita. Se vier pela N10, após passar Vila Nogueira de Azeitão, na segunda rotunda, vira para Palmela, passa por Cabanas, Quinta do Anjo e depois encontra o restaurante do lado esquerdo. Se não der pelo restaurante, não faz mal. Pode ficar na Quinta do Anjo e experimentar o Alcanena, que é da mesma família e mais rústico ainda, já que aproveita uma velha adega para fazer, também aí, as delicias que compõem o nosso estômago.

Pessoalmente, prefiro o Dona Isilda, porque tem mais oferta de comida e diversidade, para além do espaço (bem maior do que o Alcanena), quer para estacionar, quer para comer. Bate em muitos pontos, vários restaurantes do género (português, buffet, comida tradicional), como por exemplo, o Tromba Rija de Lisboa.

Comecemos pelas entradas:


Existem três mesas dedicadas a entradas (uma para queijos e pão, outra para carnes e outra com fritos), para além de uma área nos tabuleiros dedicada às saladas. Não toquei no queijo, mas é possível escolher uma variedade infindável de vários tipos: curado branco, curado de ovelha, da serra, da ilha, alentejano, flamengo, enfim. São tantos, que é difícil estar a enumerar todos. Para além do queijo, pão tradicional, com nozes e tostas. 
Optei pelas carnes e escolhi três tipos diferentes de morcela, uma rodela de chouriço, uma de farinheira e uma de paio. As morcelas estavam cada uma com o seu tempero específico, o que diferencia na qualidade. A farinheira, apesar de estar um pouco seca, era de fácil degustação. Quanto ao chouriço e ao paio, normais para a alta qualidade da casa.


Depois, fui aos tabuleiros da zona reservada às saladas e a escolha colidiu com salada de orelha fumada e salada de orelha normal, assim como a salda de grão. Na mesma zona de tabuleiros, havia muita salada, fosse ela com cenoura ralada, salada russa ou salada de alface normal. Eu optei pelo que apelava ao aumento do colestrol e não me queixei. As orelhas (para quem gosta, obviamente) estavam muito boas e o grão também.



A última parte das entradas estava destinada à mesa dos fritos e foi daí que trouxe choco frito, bolinhas de enchidos, raia, um croquete e um ovo de codorniz estrelado misturado com paio e embutido numa fatia de baguete. O choco estava divinal. Nada seco, bem mole, o que facilitava a degustação. A raia também estava muito boa e o ovo de codorniz misturado com o paio conjuga diferentes sabores na boca que são altamente recomendáveis. Deixo as bolinhas de enchidos para o fim, uma vez que foi o que me surpreendeu pela positiva. O sabor da carne misturada, onde a influência dos enchidos tem capital importância foi uma agradável surpresa. Claramente a repetir numa próxima visita.

Passemos ao peixe:


O que está no prato é facilmente explicável pelo facto de, nesta altura, começar a ficar um bocado para o cheio e como tinha uma crónica para fazer, tinha ainda de comer a carne. A escolha foi fácil e óbvia. Fácil, porque a variedade de pratos de peixe é reduzida no restaurante e óbvia, porque na semana passada tinha comido sopa de cação, pelo que este seria um prato a evitar. Assim sendo, optei pelo bacalhau com natas, bacalhau à Zé do Pipo e Açorda de Marisco. 
Comecemos por esta última. O camarão em cima do pão é só para enfeitar, porque não é preciso ter o molusco para se saborear uma açorda de marisco que sabe mesmo, mas mesmo a marisco. Não é uma açorda muito "papada", ou seja, é bastante leve, o que a torna uma boa escolha. O bacalhau com natas estava também muito bom. Não abusam muito da cebola (um clássico em vários restaurantes), mas abusam um pouco da pimenta (no entanto, suficiente para não se rejeitar logo à primeira) e o bacalhau vem acompanhado com batatas, mas na sua perfeita comparação com o bacalhau (algo que também não costuma existir em muitos restaurantes). Já o "Zé do Pipo", estava também muito bom, uma vez que não estava seco, nem com muito óleo, o que o torna bem apetecível.

Quanto às carnes:





Também optei por três pratos: arroz de aves, entrecosto no forno e dobrada. Podia escolher muito mais pratos de carne, como os que havia, entre eles, arroz de pato, favas estufadas, pezinhos de coentrada ou mão de vaca com grão, entre outros. A oferta de pratos de carne é realmente maior do que os de peixe, mas mesmo assim, a qualidade é inegável.

Nas sobremesas:




Bolo de Amêndoa, Sericaia e Bolo Rançoso. Açúcar e mais açúcar. Mas escapei-me ao bolo e à mousse de chocolate, à torta de laranja, aos inúmeros pudins e a outros doces, que compunham a mesa. Todos eles, com aspecto divinal e com sabor ainda melhor.

O vinho que me acompanhou foi o da casa, que é também da zona (tinto de Venâncio Costa Lima), que não sendo muito forte, é bastante bom para acompanhar os diferentes pratos. No entanto, a garrafeira disponível no restaurante tem uma variada oferta em termos de qualidade e de preço.

Posto isto, por 20 Euros / pessoa, com tudo incluído (entradas, pratos, sobremesas, vinho e café) o Dona Isilda é uma óptima escolha para quem quer comer muito e bem ou comer bem e muito. A simpatia dos empregados também é uma constante e só quem não foi a Palmela a este sítio é que se pode arrepender.